Los Vascos não é um nome óbvio. Significa "os Bascos" — referência à família que plantou as primeiras vinhas naquela parte do Colchagua há quase três séculos. Quando a Domaines Barons de Rothschild Lafite chegou ao Chile em 1988, não criou algo do zero. Chegou onde já havia história, solo, altitude e videiras antigas. E ficou.
Três décadas e meia depois, o resultado mais ambicioso desse projeto tem um nome: Cañeten 2022.
97 pontos no Descorchados — o guia de referência do vinho sul-americano — e 95 na James Suckling. O próprio Descorchados descreve o Cañeten como "o vinho mais ambicioso desta tradicional vinícola de Colchagua. Um tinto marcado pela fruta e com longo futuro em garrafa." Não é superlativo de marketing. É a avaliação mais alta já concedida a um vinho de Los Vascos.
O microclima que deu nome ao vinho
O Monte Cañeten tem 914 metros e define uma das particularidades mais interessantes de todo o Colchagua. De manhã, a neblina que desce da cadeia costeira cobre os vinhedos, moderando temperatura e intensidade de luz. À tarde, as brisas do Pacífico — o oceano está a 40 km — chegam diretamente ao vale, resfriando as uvas antes do anoitecer. Esse duplo movimento é o que produtores e críticos chamam de "efeito Cañeten": a capacidade de preservar frescor e expressão aromática em uma região conhecida pelo calor.
A composição pouco convencional
O Cañeten 2022 é um blend de Syrah (54%), Cabernet Sauvignon (43%) e Cabernet Franc (3%) — uma escolha pouco comum para o Colchagua, que o mercado associa principalmente ao Cabernet. Colocar Syrah no centro da história é deliberado: é a uva que melhor traduz a tensão do vale, a mineralidade dos solos e a frescura que o efeito Cañeten permite. Envelhecido por 16 meses em foudres de 4.000 litros (60%), barricas (14%) e tanques de concreto (26%) — a proporção das cubas foi pensada para integrar sem dominar. O objetivo é fruta à frente; a estrutura aparece depois.
O resultado confirma a estratégia: notas de amora, framboesa e groselha vermelha, toque de violeta e pimenta, acidez precisa, taninos polidos. Antonio Galloni concedeu 93 pontos e destacou a complexidade e a presença concentrada no paladar.
O paradoxo do Chile no mercado brasileiro
O Chile produz alguns dos melhores vinhos da América do Sul por preços que nenhuma região equivalente da Europa consegue oferecer. E ainda assim continua sendo associado, na maior parte do mercado brasileiro, à faixa de custo-benefício — o que é verdade para parte do portfólio, mas não é a história completa.
O Cañeten existe exatamente para contar a outra parte.
Para o restaurante ou adega que quer posicionar Chile sem cair no lugar-comum, o Cañeten 2022 entrega um argumento incomum: um tinto de Colchagua com a assinatura técnica da mesma família que faz Lafite Rothschild em Pauillac, pontuação de elite nos dois guias mais exigentes da categoria, e uma origem — o vale de Cañeten — que ainda não está saturada nos cardápios de Santa Catarina.
Vale de guarda de 10 anos ou mais. Servir entre 16–18ºC.
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