Em 1962, dezenove famílias de agricultores da Puglia se reuniram para fazer uma cooperativa. Não tinham muito além do que sempre tiveram: solo calcário, sol mediterrâneo e videiras antigas plantadas em alberello — o formato de arbusto, sem espaldeira, sem irrigação, que obriga a planta a trabalhar fundo para produzir cada uva. Eram vinhas que ninguém ainda chamava de "patrimônio". Eram apenas vinhedo de família, como sempre foram.
Seis décadas depois, a Cantine San Marzano tem 1.200 cooperados, exporta para cerca de 80 países e é uma das referências mundiais em Primitivo di Manduria — a denominação mais respeitada da Puglia para vinho tinto. O que começou com dezenove famílias virou uma das histórias mais consistentes do sul da Itália.
Manduria e o terroir que poucas regiões têm
A Puglia tem condições que o norte da Itália não consegue replicar: calor mediterrâneo que amadurece a uva até o limite, solo calcário que impõe tensão e mineralidade, e uma tradição de viticultura de baixo rendimento que resulta em uvas concentradas, densas, com identidade própria. A sub-região de Manduria, no centro da Puglia, é onde esse conjunto chega ao máximo.
O Primitivo di Manduria é a denominação de origem que reconhece isso. A uva Primitivo — geneticamente idêntica ao Zinfandel californiano, como a ciência confirmou nos anos 1990 — chega à sua expressão mais completa nessa faixa de terroir. Quando bem trabalhada, produz tintos de fruta madura intensa, especiaria, tanino presente mas polido, e uma profundidade que surpreende quem espera apenas sol e potência de um vinho do sul.
Sessantanni: o que 60 anos de videira mudam
O símbolo da filosofia de San Marzano tem nome: Sessantanni — "sessenta anos" em italiano. São os vinhedos de alberello com mais de 60 anos de idade, cultivados no Valle del Sessantanni — um talhão de 40 hectares que produz o tinto mais ambicioso da cooperativa: o Primitivo di Manduria DOP Sessantanni.
Videiras dessa idade não podem ser apressadas. Produzem menos uvas por planta. Concentram mais. As raízes chegam a camadas de solo que a viticultura jovem nunca alcança. O resultado é um vinho de outra densidade — não pelo açúcar ou pelo álcool, mas pela profundidade de sabor e pela capacidade de evolução em garrafa.
O Sessantanni 2020 recebeu 3 Taças do Gambero Rosso 2026 — a distinção máxima do principal guia de vinhos italianos — e 99 pontos de Luca Maroni. As duas avaliações de maior peso na Itália, concedidas ao mesmo vinho na mesma safra.
O portfólio: entrada clara, progressão real
San Marzano constrói um portfólio com três posições distintas.
O Il Pumo é o acesso. Primitivo e Negroamaro em versões acessíveis que funcionam no dia a dia de um salão, no copo-a-copo de uma adega, na entrada de qualquer carta italiana. Descomplicado, honesto, com identidade de região.
O Talò sobe um degrau. Primitivo di Manduria com mais concentração, mais estrutura, mais capacidade de acompanhar carnes, queijos curados, massas robustas. O Talò Primitivo 2023 recebeu medalha de prata no Decanter World Wine Awards 2025.
O Sessantanni é o topo: vinho de produtor, de guarda, de conversa longa. O tipo de garrafa que um sommelier abre com intenção e que um cliente de adega compra para uma ocasião especial.
Por que San Marzano agora
O sul da Itália — Puglia, Sicília, Campânia — virou a nova fronteira de qualidade do país. Por décadas, Toscana e Piemonte concentraram a atenção e os preços mais altos. O sul ficou em segundo plano. Isso está mudando.
San Marzano chegou a esse momento com décadas de vantagem: já tinha as videiras antigas, já tinha a denominação, já tinha o processo. O mercado é que demorou para prestar atenção.
Para o on-trade em Santa Catarina, San Marzano resolve uma lacuna específica: o cliente que quer explorar Itália além dos endereços mais óbvios. Quando alguém já conhece Barolo e Brunello, o próximo passo pode ser Manduria. E quando o sommelier consegue explicar que aquele Primitivo vem de vinhas com mais de 60 anos, em uma cooperativa de mais de 1.200 famílias, premiado com a nota máxima do Gambero Rosso — a conversa começa sozinha.
Para o off-trade, é o tipo de produtor que faz o cliente voltar: portfólio escalonável, história real, preço que funciona em mais de uma faixa.
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